Caminhando no Routeburn Track, Nova Zelândia

Routeburn Track, Nova Zelandia

Há alguns anos quando acrescentei a Nova Zelândia à minha lista de países a visitar, sabia que ia querer fazer pelo menos um dos Great Walks, nessa altura o que preferia era o Milford Track.

Quando finalmente decidi ir e comecei a delinear o itinerário, não foi nada fácil escolher qual dos nove Great Walks fazer, cheguei a pôr nos planos fazer dois deles, no entanto, depois de muitas voltas e reviravoltas no planeamento conclui que faria só um completo, o Routeburn Track e, parte de dois outros, o Tongariro Alpine Crossing de 1 dia e parte do Abel Tasman Costal track. 

Fiz este percurso em Janeiro. Em principio é necessário reservar com alguns meses de antecedência, a não ser que se planeie ir na estação baixa, o que não é aconselhável a todos, por causa do tempo, da neve, do risco de avalanche.

Registei-me no site do Department of Conservation assim, quando abriram as reservas online recebi uma notificação deles. Reservei as noites que pretendia e paguei os abrigos escolhidos. Fi-lo com seis meses de antecedência, embora saiba que, como há uma maior oferta de camas e abrigos e, por ser um percurso que pode ser feito em ambos os sentidos, comparativamente ao Milford Track por exemplo, as datas não esgotam com tanta facilidade.  

Podem consultar aqui todas as informações acerca dos nove Great Walks.

Depois desta breve introdução estão prontos para me acompanhar ao longo do Routeburn Track? Vamos lá então, sigam-me!

Numa curta viagem de autocarro, de cerca de duas horas, desde Queenstown cheguei ao ponto de partida, o Routeburn shelter, perto de Glenorchy (a outra opção de início deste Track é em The Divide, a 85 Km de Te Anau, que foi onde eu acabei).

Lake Wakatipu, Glenorchy
Lake Wakatipu, Glenorchy

E pronto, ali estava eu, pronta para iniciar uma caminhada de três dias sozinha, quer dizer, de repente pareceu-me que não estava pronta! Sozinha? Três dias? Mas foi um daqueles pensamentos que cruzam a cabeça só para chatear, acontece, mas é como digo, em segundos desvaneceu-se o pensamento e a ponta de medo. Afinal, que disparate, trata-se de uma caminhada fácil para mim e já foi feita por muitos caminheiros independentes antes de mim. É ir em frente, que o caminho está à tua espera! Na verdade não sei explicar porque é que em cima de toda a minha vontade de conhecer o mundo sozinha, de repente me deixei invadir por um pensamento negativo… eu nem sou assim!

Assim que comecei a caminhada como que entrei numa nova dimensão, como se tivesse entrado num outro mundo. Sendo que esse mundo se dividia em dois submundos: aquele caminho novo, desconhecido e o meu mundo interior! 

O tempo, excelente, ajudou a que eu me sentisse ainda mais feliz e satisfeita comigo. Após alguns quilómetros vi, lá no fundo, um rio lindo com água turquesa. Então havia que deixar o trilho e fazer um pequeno desvio até aquele rio. As águas de Forge Flat são lindas e frias!! Fiquei lá por pouco tempo, deu para descansar do peso que levava na mochila, para tirar umas fotografias e apreciar a paisagem, claro que aquele local não era só meu, naquele momento havia outros tantos caminheiros, barulhentos, mas ainda assim consegui afastar-me um pouco e tentar ver e sentir o espaço como se não houvesse mais ninguém…

Routeburn
Routeburn
Forge Flat, Routeburn

De volta ao trilho, que a partir daqui se tornou mais difícil, sempre a subir, estava calor e o peso da mochila custava a carregar, amaldiçoei-me por levar tanto peso! Porquê levar tanta comida? (não era assim tanta, só a suficiente para me manter durante os 3 dias). Mas não há forma de fazer o trilho sem levar tudo o que é necessário, desde a comida, a bebida (até ao primeiro abrigo, porque aí há agua potável), o saco cama para dormir, roupa e artigos de higiene pessoal. Ah e não posso deixar de referir que todo o lixo que se faça deve ser levado até ao fim da caminhada porque nem nos abrigos se pode deixar.

Routeburn
Routeburn
Routeburn
Routeburn
Routeburn
Routeburn
Routeburn

Quando pensei em descansar e parar para almoçar vi, por entre as árvores, uns edifícios! Tinha chegado ao Routeburn Falls Hut, e do lado esquerdo estava também o Routeburn Falls Lodge, apenas para quem faz o trilho com guia.

Fui dos primeiros caminheiros a chegar por isso pude escolher à vontade onde ia dormir. Arrumei os meus pertences e fui almoçar, qualquer um dos alimentos que levei comigo, tipo fruta, pão queijo e manteiga de amendoim e uns frutos secos, este foi aliás o habitual para estes dias sem reabastecimento, não sem antes apresentar o meu cartão correspondente aquela noite (que obrigatoriamente tem que ser levantado num dos DOC, no meu caso foi no de Queenstown).

Como era ainda muito cedo resolvi ir caminhar até Harris Saddle, ou seja fui fazer cerca de metade do percurso do dia seguinte. Fiz quase todo aquele caminho sem ver praticamente ninguém, com excepção de três trabalhadores que andavam a reparar o trilho. Uma maravilha. Aproveitei para absorver bem toda aquela beleza. Para desfrutar do silêncio absoluto. Já no regresso, passei por um casal com 3 crianças. No abrigo havia algumas crianças, talvez entre os 8 e os 12 anos de idade. E estavam tão felizes e bem dispostos como os adultos. Foi uma surpresa ver crianças a fazer o Routeburn, mas a verdade é que parece ser comum os pais levarem os filhos a fazer estas caminhadas durante as férias. Vi também alguns grupos de pessoas de mais idade, na casa dos setenta anos, caminhando com guias, os tais caminheiros que ficam alojados nos outros abrigos com quartos e refeições quentes e duches e todo esse tipo de conforto que não existe nos abrigos onde fiquei! Mas devo referir que, onde fiquei, não há, de todo, falta de conforto! Não, apenas não há duches e comida. E, claro, dorme-se em camaratas e não em quartos.

Mas, voltando à idade dos caminheiros, quer dizer que em qualquer idade se fazem os caminhos! E é precisamente isso que eu pretendo fazer nas próximas décadas. Há que manter a boa forma!

Routeburn
Routeburn Falls Hut

 

 

 

 

 

 

 

Harris Saddle Hut

Começava a chover à chegada pela segunda vez ao abrigo naquela tarde. Já mencionei que as vistas do alpendre do abrigo eram maravilhosas? Com a chuva e o nevoeiro todo o ambiente envolvente se torna místico, parecia encontrar-me num outro mundo, o que na verdade é quase… ora vejamos, longe das cidades, longe de tudo, sem poluição do ar e sonora. Só há duas formas de ali chegar, ou a pé, ou de helicóptero, portanto é quase o mesmo que estar noutro mundo. Não há o stress, não há os problemas de todos os dias, nada que possa estragar este estado geral de felicidade que eu experenciava naquele preciso momento!

Bom, mas chegada a noite, o cansaço começava a pesar, ao redor tudo silencioso, só se ouvindo o barulho da chuva a cair lá fora e uma ou outra voz dos poucos caminheiros que ainda não estavam a dormir. Da minha parte, assim que pousei a cabeça para dormir adormeci, verdade seja dita que a cama não era nada má e o saco cama era quente e fofo, portanto estavam reunidos todos os ingredientes necessários para uma boa noite de sono. 

Routeburn Falls Hut
Routeburn Falls Hut

Na manhã seguinte estava a chover imenso por isso deixei-me ficar até às 10h30 com a esperança de que a chuva abrandasse ou parasse, mas não foi o que aconteceu. O zelador do abrigo aconselhou a esperar tranquilamente até o tempo melhorar, mas na verdade eu estava a ficar cansada de estar ali na molenguice, precisava de me pôr em movimento. Por isso lá fui eu de mochila às costas e quase completamente tapada com o meu poncho para me proteger da chuva.

A chuva impedia qualquer tentativa de fotografar, aliás o nevoeiro era tão denso que não havia grande oportunidade para o fazer, por isso, várias vezes pensei de mim para mim que o facto de ter feito todo aquele trajecto até Harris Saddle na véspera teve um bom propósito. Quando cheguei ao abrigo de Harris Saddle já estavam lá algumas  famílias a tratar de se aquecer e a fazer uma refeição. Depressa me despachei dali e voltei ao trilho. 

Assim que reiniciei a caminhada senti-me tão leve, mas tão leve, quase que como sem uma mochila de 10 a 12 Kg às costas (eu sei, é um peso exagerado para alguém com a minha fraca estatura, mas foi o que consegui arranjar, o desapego do que não é essencial… pesava tanto como aqueles Kg, não esquecer da comida necessária e do lixo sempre a carregar até ao fim do trilho), resumindo, sabem aqueles momentos em que nas práticas de yoga passamos à última fase, a do relaxamento e, em que se sentem literalmente a levitar? Foi assim que me senti naquele momento! Leve, leve, como que a voar sobre um trilho em que os pés quase não tocam no chão e o peso da mochila não se fazia sentir. Penso que foi um dos melhores momentos solitários desta minha caminhada!

Mas, continuando, a chuva e o nevoeiro não eram grande problema comparando com o que veio a seguir: o vento! Na subida, depois de uma das curvas comecei a sentir a velocidade do vento, num local onde o trilho era de pouca largura e onde de um dos lados era o precipício. De um lado a parede de rocha, do outro, o precipício. Os bastões foram a minha ajuda e salvação, não tanto para subir mas para me manter equilibrada e não voar… Este foi o momento em que verdadeiramente senti medo. Eu sou leve, bastante leve, qualquer rajada de vento muito forte como aquele, era o suficiente para me fazer caminhar de lado, o meu medo foi mesmo real, pensei que agora iria ser levada. Mas entretanto na última curva, mesmo no final da subida, deixei o vento para trás. A chuva parou e o nevoeiro começou a dissipar-se. 

 

A partir dali era a descer. As vistas começaram a ser deslumbrantes e o Lake Mackenzie começou a mostrar-se em todo o seu esplendor, por entre a floresta. E, com ele, o próximo abrigo.

Lake Mackenzie
Lake Mackenzie

Acerca dos espaoõs à volta dos abrigos onde fiquei, o de Routeburn Falls e o do Lago Mackenzie, só posso dizer que ambos estão em sitíos fabulosos, completamente diferentes um do outro, o primeiro num local alto e o segundo num baixo, mas ambos igulamente deslumbrantes. Não pensem que estou a exagerar nos adjectivos para os descrever, são realmente lugares fabulosos!

Chegada ao abrigo, escolhi uma cama num dos beliches, comi qualquer coisa e fui explorar o exterior. Tirar umas fotografias do lago, ver todo aquele espaço deserto, sentir-me ali, sozinha, num cenário tão grandioso, coberto numa grande parte por nevoeiro, misticismo à mistura, não consigo descrever mais e melhor, só posso dizer que foi uma experiência e tanto! 

Lake Mackenzie
Lake Mackenzie
Uma valente rapariga na água gelada do Lago Mackenzie

Penso que o sentimento mais poderoso no trilho é o sentimento de liberdade e também o facto de sabermos que tudo se encontra a uma distância considerável, por isso aparentemente nada do “mundo exterior” chega até aqui, a não ser aquilo que cada um permita. Claro que falo por mim, da minha opinião pessoal, eu senti-me ali a salvo de qualquer problema ou chatice que me aflige normalmente, ali nada me conseguia chatear, preocupar ou mesmo amedrontar naquele momento.

E foi precisamente o que senti no Tongariro Alpine Crossing, apesar de ser de um só dia (mas pode ser de vários dias: o Northern circuit great walk a fazer entre 3 a 4 dias), deu para sentir exactamente o mesmo, principalmente na parte opcional da subida ao Tongariro Summit, em que até lá chegar não me cruzei com absolutamente ninguém quase até ao final. Suponho que tenha experienciado estes sentimentos por ter feito os trilhos sozinha e por, em grande parte dos dois, não me ter cruzado com muita gente.

 

Na terceira manhã… chuva de novo, claro! É suposto chover muito por aquele lado do país, só assim se conseguem todas aquelas florestas, quedas de água e paisagens verdes lindas de morrer.

Portanto lá fui eu de novo debaixo de chuva. Sem problema, caminhar à chuva só tem um inconveniente, é transpirar para dentro de um impermeável e poncho e a humidade não conseguir secar completamente, mas faz-se bem e, como se diz “quem corre por gosto não cansa” e, acrescento eu: faça chuva ou faça sol! Dali até ao abrigo em The Divide o trilho é verde, verde e mais verde e a descer!

 

 

Nesta última parte do trilho está patente o esforço para conseguir erradicar os mamíferos que têm destruído o eco-sistema do país, vêm-se armadilhas ao longo do trajecto, todas devidamente identificadas. Aqui há um grande trabalho doas zeladores dos abrigos que estão completamente envolvidos na luta contra este problema. Todos os mamíferos foram trazidos dos outros continentes nos séculos passados e na falta de predadores os neo zelandeses têm agora que conseguir dizimar esses predadores para conseguirem repôr as aves que quase foram extintas. O zelador do abrigo do Lake Mackenzie fez uma reunião para explicar exactamente o que se passa e os esforços que estão a desenvolver para conseguirem que daqui a pouco tempo se consigam voltar a ouvir os pássaros a cantar.

No final do trilho cruzei-me com alguns corredores que fazem o percurso todo seguido, a correr, no sentido contrário ao que eu fiz! Subir a correr (ou a descer) aqueles quilómetros é difícil de imaginar…

Traps on the way

 

Instalações sanitárias ao longo do percurso

 

 

Quando chequei à paragem do autocarro, ainda chovia, e já lá estavam alguns caminheiros a aguardar os seus transportes. Alguns deles estavam a oferecer chocolates mas sinceramente não conseguia comer nada doce. O que eu precisava era de uma sopa quente, isso sim! E de chá quente também. 

Eu tinha que esperar cerca de 3 horas pelo meu autocarro para Te Anau. O que foi problemático, porque com toda a chuva que apanhei já tinha os pés molhados e algumas partes da roupa também, somando o vento que por ali havia depressa gelei! Mas não era a única, já por ali havia pessoal enrolado nos sacos cama para aquecerem. 

Quando finalmente chegou o autocarro e eu entrei, pareceu-me estar a entrar no lugar mais confortável à face da terra. Um autêntico luxo: calor, tendo em conta as circunstâncias em que me encontrava!!!

Gostaria de concluir este post dizendo que o trilho não é difícil de fazer, principalmente nos 3 dias normais. Aliás para mim a maior dificuldade foi carregar com a mochila. Por isso, o meu conselho: reduzir ao máximo o que levar na mochila, mas não esquecer de levar comida suficiente e água pelo menos para o 1º dia (para o 2º e 3º as garrafas de água podem ser cheias nos abrigos). De qualquer forma é sempre necessário estar em boa forma física, por isso comecem a preparar-se com alguma antecedência, no caso de não serem caminheiros habituais.

Já agora também dizer que fiquei muito agradada por ter escolhido este trilho. A paisagem é bastante diversificada. Existem algumas espécies de aves endémicas, incluindo os canários dos arbustos e os Kea (ave em vias de extinção).

Informação útil

Podem procurar toda a informação necessária para este (e os outros) Great Walk na brochura brochure do Department of Conservation. Conforme ali descrito “O Routeburn pode ser feito em ambas as direcções. O trilho está bem marcado e sinalizado, mas algumas secções podem ser íngremes e duras e podem também estar enlameadas e escorregadias. Más condições atmosféricas podem fazer com que este trilho seja difícil mesmo na estação alta” e “este guia descreve um percurso fácil de três dias para caminheiros independentes, sem guia, durante a estação alta (desde o fim de Outubro até ao início de Maio)”.

O que fazer antes de ir:

. É necessário/aconselhável reservar online ou no DOC Visitor Centre em Queenstown ou Te Anau e pagar as noites nos abrigos (US$ 54,00 por noite por adulto) antes de ir e levantar os bilhetes dos abrigos num dos locais acima. Eu fiz a reserva e pagamento seis meses antes da data da partida.

. Reservar o transporte de e para o trilho. Eu usei o Tracknet e posso recomendar. Têm um serviço bom e bem organizado e é possível enviar a bagagem que não é necessária durante o trilho e levantá-la no final.

. Não há onde comprar comida ou bebida ou seja o que for nem no trilho nem nos abrigos. Precisará de comida, bebida, saco cama. Os abrigos não providenciam comida, utensílios de cozinha, de higiene, nem roupas de cama. É obrigatório levar todo o lixo feito ao longo do trilho, mesmo o lixo feito nos abrigos. Lembro que não há nem estradas nem carros que cheguem aos abrigos, eles são acessíveis apenas a pé ou de helicóptero. Há água nas casas de banho apenas para a higiene pessoal básica, não existindo duches. Mas há sempre a possibilidade de mergulhar nas águas frias…

E é tudo o que me lembro acerca de informações úteis.

Espero que tenham gostado deste meu relato e se tiverem alguma questão façam-na no espaço abaixo, terei todo o prazer em responder.

O próximo post será de Milford Sound e Te Anau.

Obrigada pela visita e voltem sempre

Link para o post anterior: Queenstown

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